Irara com mutação genética é registrada na beira da estrada no AM
28/04/2026
(Foto: Reprodução) Irara de cor "diferente" registrada no AM
Caio Osoegawa
Durante uma viagem ao estado do Amazonas para fotografar aves, um animal diferente chamou a atenção do médico Caio Osoegawa: uma irara (Eira barbara) com a pelagem totalmente clara, em tons de creme e amarelo.
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O flagrante ocorreu quando o observador de aves retornava do município de Presidente Figueiredo (AM) para Manaus (AM).
“Fomos até a região para fotografar o galo-da-serra e no retorno para Manaus, minha esposa, Raissa, chamou minha atenção para um animal à beira da estrada. A princípio, pensamos se tratar de um gato doméstico, mas rapidamente percebemos que era algo bem diferente”, conta Caio.
Com o equipamento em mãos, ele aproveitou para garantir os cliques, e então teve a certeza de que se tratava de um animal selvagem. “Quando olhei através da câmera percebi que era uma irara bem diferente. Ela ficou nos encarando por um tempo e depois sumiu na mata, foi super inesperado e inesquecível”, acrescenta o médico ao celebrar o momento.
“Esses encontros fortuitos tornam as saídas para a natureza ainda mais fascinantes".
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Raridade em dose dupla
Irara de cor "diferente" registrada no AM
Caio Osoegawa
A irara é um mustelídeo, assim como as lontras e os furões. É um mamífero carnívoro de médio porte que possui corpo alongado e pernas curtas, com pelagem normalmente escura.
Apesar de ter ampla distribuição pela América Central e América do Sul, não é um animal avistado com tanta frequência na natureza, por isso o registro de um indivíduo com coloração distinta se destaca ainda mais.
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“Elas são animais ágeis, discretos e de hábitos predominantemente diurnos, mas pouco tolerantes à presença humana próxima, de modo que o encontro frente a frente já é, por si, incomum. A combinação de duas raridades, o avistamento direto de uma irara somado à presença de coloração atípica, torna o registro particularmente notável", explica a Dra. Erika Hingst-Zaher, Diretora do Museu Biológico do Instituto Butantan.
Segundo a especialista, registros anteriores de iraras hipopigmentadas na Amazônia se concentram em poucas localidades, como Oriximiná (PA), no sul de Roraima e nos arredores de Manaus.
Mutação genética
Irara de cor "diferente" registrada no AM
Caio Osoegawa
Que o indivíduo possui uma alteração genética é evidente, mas sem análise de DNA ou exame laboratorial é difícil confirmar em qual quadro ele se encaixa. Pesquisadores acreditam que seja um tipo de leucismo ou um possível caso de xantocromismo.
“O animal da foto apresenta um conjunto de características associado ao leucismo em iraras: pelagem de tonalidade creme a amarela-clara, diferente da coloração típica da espécie, com os olhos pigmentados de forma normal e a máscara escura preservada. Esse padrão coincide com o descrito para indivíduos leucísticos da espécie no Brasil", pontua Erika.
"No entanto, a literatura mais recente propõe que uma grande parte dos registros classificados como leucismo em Eira barbara corresponde, na verdade, a xantocromismo, uma condição em que predominam pigmentos amarelo-alaranjados (feomelaninas) em vez de uma redução geral de melanina”, detalha a diretora.
Essa condição pode ser considerada rara, mas uma curiosidade é que, entre todos os registros de carnívoros brasileiros que apresentaram uma coloração anômala, os casos envolvendo a irara são os mais conhecidos pela ciência.
Existem pelo menos 18 ocorrências documentadas da espécie no país até 2024. “Apesar disso, esses registros são pontuais e representam uma pequena fração da população, que mantém, em sua imensa maioria, a coloração escura típica”, explica Erika Hingst-Zaher.
Ela ressalta que a mutação genética não é considerada uma doença nem mesmo um sinal de enfraquecimento individual. “Trata-se de uma característica controlada por alelos recessivos, que se manifesta apenas quando o indivíduo herda duas cópias do alelo modificado, um de cada genitor (pai/mãe)".
Cor padrão do animal
Ananda Porto
Alerta para o ecossistema
Para a ciência, a ocorrência de casos de mutação serve como alerta: quando muitos indivíduos da mesma área aparecem com alteração na cor, pode ser sinal de que as populações estão reduzidas e isoladas. Isso resulta pode resultar em uma baixa diversidade genética e em uma maior taxa de cruzamento entre indivíduos aparentados, fenômeno conhecido como endogamia.
“Nesse sentido, o aumento de registros de leucismo no Brasil, sobretudo em áreas fragmentadas e impactadas, é interpretado como um possível indicador de perda de conectividade entre populações. O leucismo, então, não é causa de enfraquecimento, mas pode funcionar como um sinal indireto de que a população local está sob algum grau de isolamento”, alerta Erika.
Registros assim, além de representarem um encontro especial, trazem dados importantes para a compreensão populacional da espécie e sobre a saúde do ecossistema, podendo subsidiar futuras pesquisas de conservação ambiental.
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