De espada viking a escudo templário, cuteleiro de Sorocaba se destaca com peças inusitadas: 'Cultura e história'
31/08/2025
(Foto: Reprodução) Artesão de Sorocaba (SP) se destaca na cutelaria nacional com peças inusitadas
Um artesão de Sorocaba (SP) chama a atenção por transformar aço em objetos inusitados, como espada viking, escudo e peitoral de cavaleiros templários. Por curiosidade, Pedro Lopes começou na cutelaria 18 anos atrás, e hoje se destaca com prêmios em concursos internacionais. Para ele, cutelaria e cultura são inseparáveis.
A arte de fabricar essas ferramentas é a chamada cutelaria, uma tradição milenar, que tem adeptos por todo o Brasil.
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Grão-mestre em taekwondo, Lopes já havia experimentado trabalhos manuais em outros campos, como customização de motos. Mas foi na cutelaria que encontrou uma paixão que mudou o rumo da vida. De uma curiosidade para um hobby, terminou como atividade profissional.
Sem intimidade com a cutelaria, o sorocabano iniciou em 2007 para agradar ao filho e seus amigos, que buscavam na internet por informações sobre uma faca típica do Nepal, a kukri, também chamada de espada gurkha curva.
“Eu nem conhecia os tipos de faca, nada. Um amigo do meu filho falou que gostaria de uma kukri, mas era cara, algo como R$ 1,6 mil. E eu falei que conseguia fazer uma dessas. Assim eu comecei, por mera curiosidade”, conta o artesão.
Duas peças criadas pelo cuteleiro Pedro Lopes, de Sorocaba (SP): adaga em aço damasco com trança em prata no cabo e na bainha (esq.) e espada curta com detalhe para o cabo em marfim de mamute (dir.)
Fotos: Pedro Lopes/Arquivo pessoal
Pesquisa cultural
Lopes passou a confeccionar de facas simples a armas históricas, como alabardas, espadas vikings e templárias. Seu interesse vai além da técnica: envolve pesquisa sobre simbolismos, gravações e aspectos culturais, que ele busca em livros, vídeos e na internet.
“Cutelaria trabalha com a cultura e com a história. Cada cuteleiro busca informações e conhecimento sobre as peças. Para mim, é uma viagem no tempo”, afirma Lopes.
O cuteleiro não se limita a um único estilo, preferindo a diversidade. Trabalha com materiais variados, que vão dos metais a madeiras nobres e resinas, até marfim de mamute extraído de geleiras, conforme conta.
Essa ousadia o levou a participar de feiras e eventos internacionais, como na Argentina, em 2015, onde recebeu prêmios. Suas peças foram avaliadas por nomes de renome mundial na cutelaria, como o norte-americano Jerry Fisk e o russo Zaza Revishvili.
Pedro Lopes exibe peitoral e escudo de templários, feito em aço batido à mão. À esquerda, faca modelo nessmuk, inspirada nos nativos norte-americanos
Fotos: Pedro Lopes/Arquivo pessoal
Inspiração templária
Entre as criações mais recentes de Pedro Lopes estão um peitoral templário em aço batido à mão, que chamou a atenção nas redes sociais.
A peça foi acompanhada por um escudo em formato de lágrima e por uma espada dos templários. De acordo com o sorocabano, a repercussão trouxe novos interessados em conhecer a história por trás das peças.
Elas foram apresentadas em um evento que Lopes ajudou a organizar em Sorocaba, há uma semana, com o envolvimento de outros artesãos da cidade: a segunda edição da Feira Nacional de Cutelaria.
Ele também se dedica a reproduzir conjuntos vikings completos, incluindo facas, espadas, escudos e machados, além de peças inspiradas em armas indígenas norte-americanas.
Facas sorocabanas produzidas pelo artesão Pedro Lopes: modelo reconhecido como patrimônio cultural imaterial da cidade e referência nacional
Pedro Lopes/Arquivo pessoal
Faca sorocabana e diversidade
Além do aspecto histórico, o artesão atende um público diversificado, como colecionadores que procuram adagas, punhais, canivetes e espadas.
Segundo Lopes, outros se interessam por facas de cozinha e churrasco, hoje responsáveis pela maior parte das encomendas. Há também modelos luxuosos, que incluem acabamentos em ouro.
Ele destaca ainda a famosa faca sorocabana, caracterizada pela lâmina enterçada, considerada patrimônio cultural imaterial da cidade.
“É a única faca brasileira com nome de uma cidade, criada no período dos tropeiros. Uma marca cultural do interior paulista e que virou referência nacional”, afirma Lopes.
Reconhecido até em livro especializado de cutelaria, Pedro Lopes também dedica tempo ao ensino. Já formou dezenas de alunos em cursos de diferentes níveis, que vão desde oficinas de um dia até treinamentos de uma semana.
Entre os interessados, estão aposentados, militares, escoteiros e até médicos vindos de outros estados. O próximo passo é ambicioso: a criação de uma escola sorocabana de cutelaria, com cursos estruturados para iniciantes e profissionais.
Para o artesão, é uma forma de aliar a cutelaria à arte e à memória de diferentes civilizações.
Pedro Lopes é reconhecido em livro sobre cutelaria, onde aparece ao lado de uma faca viking seax, produzida por ele: pesquisa histórica
Pedro Lopes/Arquivo pessoal
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