Corregedoria apura menção a nome de diretor da Polícia Civil de SP em áudio de investigados pela PF
06/07/2026
(Foto: Reprodução) Sede da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, na Rua da Consolação, região central da capital paulista.
Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo
A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo abriu um procedimento para apurar as circunstâncias da menção ao nome do delegado Fabio Pinheiro Lopes, atual diretor do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope), em um inquérito da Polícia Federal que investiga uma suposta rede lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas.
"Assim que tomou conhecimento dos fatos, a Corregedoria da Polícia Civil instaurou um procedimento correcional para apuração de todas as circunstâncias, incluindo o compartilhamento de informações com a Polícia Federal. A instituição reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a apuração dos fatos e a garantia dos direitos de todos os envolvidos", informou em nota a Secretaria da Segurança Pública (SSP).
Segundo relatório da PF, o nome de Pinheiro Lopes foi citado em um áudio enviado em maio de 2024 pelo advogado Romany Cutolo Bonente, conhecido como "Roma", ao empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, responsável pelo núcleo financeiro do esquema investigado e alvo de sanções dos Estados Unidos na última semana. Ambos foram alvos de mandados de prisão pela Operação Exchange, deflagrada na última sexta-feira (3), e são considerados foragidos.
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Os investigadores registraram que o episódio pode indicar uma possível prática de corrupção e defenderam o aprofundamento das apurações. O delegado não é alvo da Operação Exchange nem foi denunciado ou acusado formalmente no caso.
Ao g1, ele afirmou que nunca conheceu nenhum dos investigados, que o áudio registrou uma "conversa entre bandidos" e que vai processar o advogado que citou o seu nome. Também disse que foi ele mesmo quem acionou a Corregedoria para que fosse instaurado o procedimento (leia mais abaixo).
Na conversa interceptada pela PF, Roma relata problemas na administração de dívidas milionárias atribuídas a Shimada e afirma que precisava fazer um pagamento ao "Fabio Caipira do Deic [Departamento Estadual de Investigações Criminais]", apelido pelo qual é conhecido o delegado, que na época comandava o departamento.
"Eu tenho que mandar R$ 100 mil pro Fabio Caipira do Deic, entendeu? Eu tenho que mandar e ponto, acabou", disse Roma no áudio, segundo transcrição reproduzida na decisão judicial que autorizou a operação. O advogado já passou dois anos preso por furto qualificado e tem antecedentes criminais por estelionato, extorsão e associação criminosa.
O delegado da Polícia Civil de São Paulo Fabio Pinheiro Lopes, diretor do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope).
Montagem/g1/Reprodução/Alesp e Redes Sociais
Procurado, o delegado Fabio Pinheiro Lopes disse que nunca conheceu ou investigou Shimada, e que nunca tinha ouvido falar de Roma. Afirmou ainda que nunca foi alvo de apuração, inquérito ou procedimento da PF, e que vai processar criminalmente o "suposto advogado".
"Se eles [os investigadores] têm o telefone do Shimada, eles vão ver que esses caras nunca falaram comigo, nunca estiveram no Deic, nunca estiveram onde eu estou. Que tipo de vantagem eu poderia oferecer para esse cara se eu não tenho nenhum tipo de investigação contra ele?", declarou ao g1.
O delegado também registrou um boletim de ocorrência por calúnia, difamação e tráfico de influência contra Roma, a quem acusa de ter usado seu nome indevidamente para extorquir Shimada.
"Fui durante anos um delegado muito atuante, responsável por várias operações e prisões amplamente veiculadas pela mídia. Isso infelizmente dá motivos para advogados inescrupulosos usarem o meu nome para extorquir os seus clientes", afirmou o diretor do Dope.
Afastamento do Deic em 2024
O então diretor do Deic e um delegado foram afastados pelo governador de São Paulo em dezembro de 2024
Em dezembro de 2024, Fabio Pinheiro Lopes foi afastado do comando do Deic após ser citado na delação do empresário Vinícius Gritzbach, assassinado no Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos.
Em depoimento ao Ministério Público, Gritzbach afirmou ter pago R$ 5 milhões a um advogado que prometia obter vantagens em uma investigação por lavagem de dinheiro conduzida pelo Deic em 2022.
À época, o delegado negou as acusações e afirmou que elas eram falsas, sustentando que Gritzbach mentiu em sua colaboração premiada ou foi enganado pelo advogado. Ainda assim, o afastamento foi determinado pelo governo paulista durante as apurações.
"Puto, injustiçado, eu tenho 32 anos de polícia, você pode ver minha carreira", respondeu Pinheiro Lopes a jornalistas sobre como se sentia diante do afastamento. "O governador [Tarcísio de Freitas] tem as razões dele, mas tenho certeza que na hora que tudo se esclarecer, ele vai ver que se antecipou e a gente vai voltar para o lugar da gente", declarou o delegado na época.
Meses depois, Pinheiro Lopes passou a chefiar a divisão de materiais bélicos do Departamento de Administração e Planejamento da Polícia Civil. Em janeiro de 2026, ele foi nomeado para a diretoria do Dope pelo então secretário-chefe da Casa Civil do governo, Arthur Lima, conforme publicação no Diário Oficial.
A apuração pelo MP foi arquivada em março de 2025 por falta de provas. A Procuradoria-Geral de Justiça concluiu que as acusações de corrupção feitas por Gritzbach não foram corroboradas por outras evidências produzidas durante a investigação.