Casas antigas resistem entre prédios e revelam a Campo Grande de 127 anos

  • 26/08/2026
(Foto: Reprodução)
Casas antigas resistem entre prédios e revelam a Campo Grande de 127 anos A poucos metros da Avenida Afonso Pena, principal avenida de Campo Grande, uma rua do bairro Amambaí ainda preserva casas baixas, algumas construídas há quase um século. Entre elas, já aparecem prédios, imóveis com placas de venda e aluguel e construções mais recentes. É nesse pedaço da cidade que Vera Lúcia Bossay Chita, de 76 anos, ajuda a contar parte dos 127 anos de Campo Grande, celebrados nesta quarta-feira (26). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp ➡️🎂 Esta reportagem faz parte de uma série especial em homenagem aos 127 anos de Campo Grande, celebrados nesta quarta-feira (26). Um rua feita de história Para lembrar como o bairro mudou, Vera aponta para os imóveis ao redor de casa. Em um morava o sogro. No outro, um irmão dele. Do outro lado da rua ficava a irmã. Mais adiante estava a "casa grande", onde viveram os avós do marido e onde, segundo Vera, hoje mora um bisneto da família. "Essa rua inteira é feita de história?", perguntou a reportagem. "É, de história", respondeu. Casa da família Chita mantém na fachada as iniciais da família e o ano de 1932, no bairro Amambaí, em Campo Grande. — Foto: Gabi Cenciarelli/g1 MS Gabi Cenciarelli, g1 MS A família Chita, de origem portuguesa, vive há gerações nessa região do Amambaí. Em uma das antigas fachadas, ainda aparecem as iniciais CJ e o ano 1932. Vera passou a fazer parte da família quando se casou, em 1971. Ela e o marido estão juntos há quase 54 anos. Ele cresceu no bairro e, depois do casamento, comprou uma das casas da família. A residência original foi derrubada quando vieram os filhos e o casal precisou de mais espaço. A construção atual é maior e passou por mudanças, mas ainda conserva características encontradas em outras casas da rua, como a grade baixa voltada para a calçada e o jardim na frente. "Nós tivemos oportunidades de comprar coisa melhor. Mas meu esposo sempre gostou daqui, porque foi criado aqui", conta. Da bicicleta na praça às câmeras nos muros As mudanças do bairro aparecem nas lembranças de Vera. Ela guarda fotografias dos filhos pequenos andando de bicicleta em uma praça próxima e se recorda do "Brotinho", comércio onde os moradores compravam linhas, agulhas e outros aviamentos. os 76 anos, Vera Lúcia Bossay Chita vive há décadas no bairro Amambaí e acompanhou as transformações da região. Gabi Cenciarelli/g1 MS Também conhece os antigos moradores pelo nome e pelo endereço. Uma dessas lembranças está poucos metros adiante, em uma pequena casa de madeira azul. "Morava aí o capitão Henrique Monteiro. Gente boa. Nossos vizinhos. Eu chamava ele de padrinho e a esposa dele de madrinha", lembra Vera. A casa continua de pé. Hoje, nela vive Renato Aparecido da Silva, de 54 anos, que chegou ao endereço ainda criança e atualmente mora com os filhos. Segundo Renato, a mãe foi a primeira pessoa da família a viver ali. Eles estão no imóvel há quase 50 anos. A fachada ainda é formada por tábuas de madeira pintadas de azul, com detalhes recortados próximos ao telhado. As décadas também deixaram adaptações: a janela ganhou grade, foi instalado ar-condicionado, o muro ficou mais alto e uma cozinha foi construída nos fundos. "Por fora ela é a mesma casa", diz Renato. Ele conta que a família também colocou piso no interior, mas preservou boa parte da construção. Renato ainda guarda fotografias antigas do imóvel. "Essa casa representa muita coisa para a gente." Na mesma rua, outras mudanças são mais recentes. Câmeras, grades e muros hoje fazem parte da paisagem. Vera relata que um imóvel da família já foi furtado e diz que a preocupação com a segurança aumentou. Há também casas com placas de venda e aluguel. Segundo ela, algumas foram colocadas no mercado depois da morte dos antigos moradores, quando os filhos decidiram vender e dividir o patrimônio. Outros vizinhos deixaram ou pretendem deixar o bairro para morar perto dos filhos. Vera não pensa em vender. "Não, não. Por nada." Campo Grande cresce para cima O cenário encontrado no Amambaí acompanha uma mudança na forma como Campo Grande cresce. Segundo o presidente do Sindicato da Habitação de Mato Grosso do Sul (Secovi-MS), Renato Perez, a capital foi marcada durante muito tempo pela expansão horizontal, com bairros de casas e terrenos relativamente grandes. LEIA TAMBÉM: A vida noturna que revive endereços históricos, mas luta para existir nas ruas de Campo Grande Do bolero ao flashback: os bailes que marcaram gerações em Campo Grande Malas pelo ar e um italiano barulhento: os segredos de um hotel icônico às margens dos trilhos de Campo Grande Esse modelo continua existindo, mas passou a conviver com uma verticalização cada vez mais evidente. A valorização dos terrenos é um dos fatores que impulsionam esse processo. Conforme uma região passa a concentrar infraestrutura, comércio, escolas e serviços, aumenta o interesse pelo potencial construtivo de áreas antes ocupadas por uma única residência. A redução do tamanho das famílias e a busca por segurança e praticidade também influenciam essa mudança. Mesmo assim, casas antigas permanecem em áreas valorizadas. "Elas são quase fotografias de diferentes momentos de Campo Grande", afirma Perez. Segundo ele, uma residência antiga ao lado de um prédio novo permite enxergar, no mesmo quarteirão, a cidade horizontal de terrenos maiores e famílias numerosas e a Campo Grande mais vertical de hoje. Para o presidente do Secovi-MS, o vínculo dos moradores com esses imóveis também ajuda a explicar por que alguns permanecem mesmo diante do interesse do mercado. "O mercado consegue estabelecer o preço de um terreno, mas não consegue medir o valor emocional que aquela casa tem para uma família", diz. A tendência, segundo Perez, é que Campo Grande continue se verticalizando. Ele avalia, porém, que esse crescimento precisa ser acompanhado de planejamento urbano, mobilidade, drenagem, arborização, saneamento e qualidade dos espaços públicos. "Resistindo ao modernismo" Na rua onde Vera vive, a transformação já pode ser vista sem precisar recorrer às fotografias antigas. Os prédios aparecem atrás dos telhados, enquanto algumas casas aguardam novos donos. Outras continuam com as mesmas famílias. "Eu gostaria que nosso bairro continuasse assim. Resistindo ao modernismo", diz Vera. Aos 76 anos, depois de criar os filhos ali e ver vizinhos e construções mudarem ao redor, ela ainda reconhece cada pedaço da rua pela história de quem viveu nele. "E assim nós vamos vivendo, minha filha." Veja vídeos de Mato Grosso do Sul

FONTE: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/08/26/casas-antigas-resistem-entre-predios-e-revelam-a-campo-grande-de-127-anos.ghtml


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